1 de Maio de 2011

Cinema: Contraluz

Tive ontem a oportunidade de ver o filme de Fernando Fragata, o realizador português que foi tentar a sorte em Hollywood.
É sempre bom ver um compatriota tentar romper por terras da maior indústria cinematográfica do mundo.
Mas passemos ao filme em si.

Encontramos aqui um Joaquim de Almeida menos canastrão do que o costume, mas não muito menos que estranhemos aquilo a que estamos habituados, juntamente com um punhado de actores pouco ou nada conhecidos e mais uma ou duas modelos portuguesas pelo meio.
Embora seja utilizado o já mui batido argumento de histórias que se cruzam nos pormenores mais ínfimos, a história é simples o bastante para que ninguém fique confuso.
O ponto comum entre as personagens são as tragédias que marcaram as vidas de todos, ponto esse que vai efectuar a convergência num único sítio que vai proporcionar o culminar da história. Os pormenores que os levam lá, fica para ser descoberto por quem quiser ver o filme.

O sistema de histórias cruzadas resulta bem para contar estas histórias, mas, voltando atrás, é um sistema que começa a estar já muito visto e que já foi muito mais bem explorado por outros realizadores e argumentistas.
E é precisamente aqui que começam os problemas deste filme.

Primeiro, a história é demasiado simples para que sejam criados demasiados artifícios para a contar. Entrando em pormenores mais técnicos, nota-se "à légua" que este é um filme feito por portugueses e é algo que me continua a transcender: seja pela iluminação, seja pelos ângulos, enquadramentos e movimentos de câmara, seja pela edição, percebe-se nos primeiros segundos que este é um produto luso.
Depois existem pormenores bastante irritantes para quem gosta de bom Cinema: não é preciso, sempre que se muda de ambiente, lugar, altura do dia, recorrer ao fade to black, que ao terceiro ou quarto já farta; não precisamos de legenda para percebermos que a acção se passa no dia anterior ou noutro período temporal anterior; mais do que tudo, não precisamos que uma voz off nos esteja a relembrar de pormenores que vimos há menos de vinte minutos atrás, como se tivéssemos a memória de um peixe dourado.

Mas aquilo que me deixou mesmo frustrado foi o facto de, por muito que tenha tentado, não perceber o porquê de ter que se ir para a América para rodar este filme.
A quem vir o filme deixo a pergunta: que cena deste filme não poderia, perfeitamente, ser substituída por uma planície alentejana, pela barragem do Alqueva, por um prédio lisboeta? Sim, de certeza absoluta que não ia ter o mesmo impacto do que dizer-se que se foi para Hollywood; de certeza que houve mais dinheiro envolvido; mas o resultado final poderia ser alcançado sem ir para além das nossas fronteiras.

Fica a sugestão de um filme português, feito por (também) portugueses, mas em terras do tio Sam, com o gesto final gracioso da homenagem a António Feio.

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